Descobri o blog do Gilberto um tempo atrás quando ele dedicou um post ao meu blog, e achei muito interessante ler sobre a perspectiva de um brasileiro nos EUA (aliás, ele gostou do meu blog, e fiquei lisonjeada). Ele trabalha como repórter em Washington, DC e compartilha a sua experiência pessoal no blog, além da sua visão dos dois países. Ele tem um "olho crítico" que acho legal, e tem a habilidade de observar outras culturas com perspicácia e respeito. Quando soube que ele iria voltar para o Brasil, e o motivo da volta, resolvi entrevistar ele para saber mais sobre seu tempo nos EUA e abrir um espaço para um jornalista corajoso e inteligente.
Quanto tempo você morou nos EUA?
Um ano e um mês. Eu ainda moro em Washington e devo regressar ao Brasil somente em fins de março.
Trabalhou como réporter internacional e blogueiro – qual foi sua matéria preferida?
Nos EUA, a cobertura da posse do Obama e do terremoto no Haiti foram dois trabalhos muito marcantes.
Ao final, qual foi a sua visão dos EUA?
Qualquer visão de país muda bastante quando vc passa a morar no país. Uma coisa é passear em algum lugar e outra coisa é viver ali. Neste sentido, a visão que se tem do país fica mais apurada, é possível entender melhor determinadas reações dos americanos, por exemplo, a fatos dentro e fora dos EUA. Continuo achando os EUA um país formidável e admirável, mas penso que agora percebo com mais clarezas os pontos fracos do país e de seu povo, extremamente polarizado entre progressistas e conservadores.
Como foi a experiência de trabalhar no exterior? Como foi em comparação com sua experiência na China?
Bem, nos EUA eu não tive a metade dos problemas que eu tive para trabalhar como jornalista na China, que é um país que não gosta de repórteres estrangeiros e cujo governo não se sente na obrigação de dar satisfação do que faz aos chineses (que dirá a jornalistas estrangeiros, ainda que isso venha melhorando com o tempo de forma bem irregular). Nos EUA, o problema que se enfrenta é a pouca importância que o Brasil tem para os americanos. As fontes adoram falar para a imprensa americana e européia, especialmente a inglesa, e muitos sequer respondem a pedidos de entrevista.
Leia a íntegra da entrevista aqui
Como foi morar na capital do país?
Adoro Washington, um lugar com uma qualidade de vida incomparável e muito da própria história dos EUA a cada esquina. Sou felicíssimo aqui.
Que podemos (os americanos) aprender dos brasileiros? Que podem aprender os brasileiros de nós?
Os americanos podem aprender a não levar tudo radicalmente a sério, como parece ser a norma aqui. O estresse não é um pré-requisito para o sucesso de nada. Os brasileiros podem aprender que nem tudo na vida é brincadeira e que há um preço a se pagar pelo crescimento de uma Nação: as coisas não vem de graça, nem são dadas pelos caudilhos-coronéis que ainda se espalham feito praga pelo país. É preciso brigar pelo que se quer.
Qual foi sua comida favorita daqui? Sua menos favorita?
Como você vê o futuro do relacionamento entre os dois países e os dois povos?
Vejo com otimismo. À medida em que a importância do Brasil cresce no cenário internacional, os americanos passam a ver o país mais seriamente. E à medida em que a importância americana no cenário internacional regride - por conta da gigantesca crise econômica e do governo mais multilateral dos democratas - o espaço para o diálogo e parcerias entre os países cresce.
Por que resolveu voltar para Brasil?
O motivo e as dificuldades do meu parceiro vc encontra aqui: http://oglobo.globo.com/blogs/noimperio/
[Resumo: o parceiro dele teve dificuldades de entrar nos EUA para passar tempo com ele, já que os casais gays não têm os mesmos direitos que os casais héteros. Na verdade, quase nenhuns. Toda vez que o parceiro entrou no pais, teve uma experiência pouco agradável na imigração, e o Gilberto não queria que se arriscasse mais.]
Você pretende continuar com a mesma profissão quando voltar para o Brasil?
Não. Ao regressar ao Brasil, pretendo começar a trabalhar cobrindo as eleições gerais previstas para novembro.
Acredita que a lei irá mudar no Brasil para garantir os direitos de casais gays? Nos EUA?
Acredito que, mais cedo ou mais tarde, a lei terá que mudar para abrigar um direito civil que transforma todos os gays e lésbicas hoje em cidadãos de segunda categoria. Quanto mais brigarmos contra a falta de legislação que nos garanta este direito, mais cedo conquistaremos o próprio. Se esperarmos para que o Congresso nos conceda o que nos é de direito, o processo demora mais tempo. Mas acho que muda, tanto no Brasil quanto nos EUA.



Ótima entrevista. Como brasileira moradora de Washington concordo com as observações do Gilberto, com exceção da qualidade de vida (o trânsito é infernal). Gilberto deve ter morado e trabalhando no District e talvez não tenha dirigido nos subúrbios.
Uma pena as restrições às visitas do seu parceiro. A luta pelos mesmos direitos aos casais do mesmo sexo e dos casais heterossexuais é uma luta de todos nós, brasileiros ou americanos.
Finalmente, tendo vindo aos EUA nos anos 60 pela primeira vez, e tendo vivido aqui nas décadas dos 70 e 90, senti que o Brasil passou de um lugar "exótico" (para os americanos mais bem informados) a ser um país que provoca uma certa admiração. Quanto aos americanos menos instruídos, estes não conhecem nada que passa além de sua própria "county".
Parabéns Rachel, o seu blog é um deleite (ai que palavra mais antiga :))
Posted by: Grace | February 22, 2010 at 11:16 AM
Este é um relatório grande. Muito obrigado por isso. Estou animado com o que estamos prestes a ler ainda. muitas saudações de Amsterdam, Keey
Posted by: Jobsuche | August 19, 2011 at 08:48 AM